Artigos autorais

Editorial: Fundação Palmares está empenhada em diminuir importância de Zumbi dos Palmares

Hoje, dia 13 de maio, recorda-se a assinatura da Lei Áurea, firmada neste dia há 132 anos pela Princesa Isabel e aprovada pelo Senado do Império do Brasil. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão. Sofrendo enorme pressão internacional e vendo crescer os movimentos abolicionistas, alguns liderados pela própria população negra, a classe dirigente não teve escolha a não ser decretar o fim da escravidão legal. Não houve nenhuma compensação ou alternativa para os libertos se inserirem no país que se formava.

Por decretar, com imenso atraso, o fim de uma prática desumana, a data não é comemorada oficialmente nem é um feriado nacional. Ao invés do dia 13 de maio, comemora-se o 20 de novembro, dia da consciência negra. A data ressalta o papel dos próprios negros no processo de sua emancipação. O 20 de novembro faz referência à morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, situado entre os estados nordestinos de Alagoas e Pernambuco. Considerado símbolo da luta pela liberdade e valorização do povo negro, Zumbi foi morto em 1695, na referida data, por bandeirantes.

Sérgio Camargo, que foi escolhido por Jair Bolsonaro para o cargo de presidente da fundação que leva o nome do quilombo de Zumbi, escolheu o 13 de maio para prestar homenagem à princesa Isabel e para, segundo suas palavras, “revelar a verdade” sobre Zumbi no site da instituição.  Na teoria, a fundação deveria promover e preservar os valores culturais, históricos, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira.

Em um dos textos publicados no site da Fundação Palmares nesta quarta-feira (13), chamado de “A Narrativa Mítica de Zumbi dos Palmares”, Zumbi é descrito como um mito fabricado por grupos de esquerda para se encaixar “na mitologia da luta de classes do negro contra o branco opressor”.

Com poucas referências bibliográficas e afirmações sem evidências históricas, o texto recorre ao escritor Olavo de Carvalho para atacar grupos de negros, homossexuais e o que o autor chama de comunistas e militantes. Em outro texto publicado pela fundação, afirma-se que a criação de uma figura como Zumbi teria o objetivo de “usar o povo negro como massa de manobra”.

Não é a primeira vez que tentam reescrever a história de Zumbi dos Palmares, com o objetivo de diminuir sua importância. O jornalista Leandro Narloch tenta, há alguns anos, emplacar a ideia de que o próprio Zumbi teria escravos. Narloch reconhece que faltam dados históricos e autores para sustentar essa tese.

A desconstrução da figura de Zumbi parece obedecer à lógica de desvalorização dos heróis e heroínas oriundos do povo e que lutaram por seus direitos à revelia da classe dominante. Dos 45 nomes inscritos no Livro de Aço do Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, os chamados Heróis Nacionais, apenas 5 são negros: Zumbi dos Palmares, Dandara, João Cândido, Luiz Gama e Machado de Assis.

Articulação Nacional, Observatório Nacional da Cultura.

 

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