Artigos autorais

O Brasil que não lê – A relação com a leitura e a formação de novos leitores

Primeiro de dois textos da série O Brasil que não lê, de Arthur Yuka.

É senso comum que o Brasileiro pouco lê. Normalmente fundamentamos esse tipo de informação a uma pesquisa e/ou estudo, mas no caso da leitura no Brasil, basta olharmos para dentro de nossa própria casa. Quantos leitores encontramos? E se ampliarmos para os primos? Os tios? Vizinhos e amigos? Quantas pessoas conhecemos que, realmente, leem?

Mas para não ficarmos somente no campo da suposição, o Instituto Pró-Livro, através da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, aponta que 56% da população brasileira é composta por leitores. Mas também considera leitor aquele que leu um livro ou parte dele nos últimos três meses, ou seja, não precisa nem ler o livro até o final. E para que fique claro, os leitores brasileiros leem em média 1,26 livros por ano quando se trata de literatura. Na França, de acordo com pesquisa divulgada pelo Centro Nacional do Livro (CNL), esse número é de 21 livros no mesmo período. E isso não se deve a falta de acesso, ou questões econômicas.

De acordo com a pesquisa nacional, o brasileiro não lê porque não quer; pois quando a pergunta foi direcionada aos não leitores, 96% alegaram não terem tempo, não gostarem, não terem paciência para ler ou por se sentirem cansados. Mas não é só: quando a pergunta foi direcionada aos leitores sobre a preferência de atividades em tempo livre, a leitura veio apenas em décimo lugar, perdendo para passatempos como assistir televisão – que é disparado o primeiro atrativo brasileiro – ouvir música, usar internet, reunião com amigos e/ou família, assistir filmes e vídeos em casa, usar o aplicativo WhatsApp, entre outros.

A prática da leitura é fundamental para o aprimoramento do vocabulário e escrita, para o desenvolvimento do raciocínio e interpretação, assim como para o aprendizado profissional e conteúdo especializado, além do desenvolvimento da imaginação e intelecto. Em um estudo da Universidade de Yale, que avaliou 3.635 pessoas durante 12 anos, denominado A chapter a day: Association of book reading with longevity (Um capítulo por dia: Associação de leitura de livros com longevidade), publicado na Social Science & Medicine, apontou que ler prolonga a vida. Segundo Becca R. Levy, professora de epidemiologia de Yale e principal autora do estudo, após ajustar fatores como sexo, raça, condições de saúde e possível obesidade e/ou depressão, ler meia hora por dia gera vantagem em relação aos que não leem, disse ao The New York Times. E quanto mais tempo investido na leitura, melhor: 3,5 horas por semana aumenta em 17% o tempo de vida em relação aos que não leem. Lendo ainda mais esse número pode chegar a 23%.

De fato, a leitura é como um exercício para a mente, pois enquanto lemos, o cérebro se mantém ativo, crescendo, mudando, fazendo conexões, decodificando símbolos abstratos e sintetizando os resultados em ideias complexas.

Mas como formar leitores em um cenário como o nosso?

Para a doutora em Letras, Lilian Cristine Hübner, professora na Escola de Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), é necessária a participação de pais, educadores, governo e da sociedade na formação de novos leitores. A professora e o professor não são os únicos responsáveis por essa formação. O uso social da leitura e da escrita deve começar ainda no seio familiar, com sua promoção iniciando-se ainda muito cedo, tão logo a criança demonstre capacidade de atenção e interesse por ouvir histórias e manipular livros infantis. Através da mediação de leituras realizadas pelos pais, amplia-se o vocabulário dos filhos e os expõem a variadas formas de texto, o que as municiam para receber e assimilar, posteriormente, o ensino formal.

Segundo a professora, as crianças ou jovens em processo inicial de leitura demandam um esforço grande de sua memória de trabalho e de sua atenção, reduzindo recursos cognitivos necessários para uma compreensão mais global do texto. Ou seja, o esforço para aprender a ler é tão grande que compromete a compreensão total do texto. Para lidar com isso, romper essa barreira e tornar a leitura algo prazeroso, é necessário tornar-se um leitor fluente. Esse deve ser um dos objetivos fundamentais no início da alfabetização. Mas, de acordo com a pesquisadora Magda Soares, uma referência em nosso país no que tange o tema alfabetização, esse é apenas um dos pontos a serem considerados no ensino da leitura e da escrita. É necessária também a interação, que inclui, entre outros aspectos, capacidade de interpretação do texto, compreensão do assunto, produção textual, ampliação do próprio vocabulário do leitor e entendimento de convenções a que textos escritos obedecem. Junte a isso a questão sociocultural em que se inserem o conhecimento e a prática de usos de linguagem e as funções e valores sociais da escrita em eventos de letramento.

Diante do exposto, percebemos que a formação de público leitor tem um caminho muito maior e mais amplo que somente a questão do acesso ao livro. Além da atenção do governo e de iniciativas públicas e privadas, é necessária a iniciação desde cedo, mas não só. Torna-se necessária também, além da disponibilização do acesso ao livro, o despertar deste público para a leitura.

Arthur Yuka é escritor, gestor cultural e articulador do Observatório Nacional da Cultura.

 

Imagem em destaque: Di Cavalcanti, Emiliano (1897-1976). Menina lendo, 1970

8 comentários

  1. Parabéns pelo artigo primo!!!!
    Excelente!!!
    Vou fazer a leitura do mesmo em reunião pedagógica na escola que leciono para uma reflexão…
    Beijos
    Luciana
    Filha da tia Cida 😘

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  2. É o que eu acho Tucão: iniciar o hábito de cedo, de criança, da barriga; eu lia pra Mariah quando grávida. Mas, caso o adulto não tenha desenvolvido por algum motivo, ainda há tempo de se desenvolver esse hábito sensacional. Confesso que lia muito mais, e tenho tentado retomar meu ritmo, mesmo que aos poucos. Mas Mariah já tá sentindo na pele. Falo pra ela escolher no quarto qual ela quer que leia antes de dormir, mesmo que ainda não tenha tanta paciência. Mas a gente da uma viajada juntas. É muito massa!
    Te amo, primo! Orgulho de você!

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