Artigos autorais

Os Mantos Tupinambás e os museus da Europa

Os Mantos Tupinambás são peças artísticas e ritualísticas do povo que habitava a costa do Brasil há 500 anos. Há apenas seis exemplares preservados no mundo que ainda trazem quase intactos os trançados de fibras naturais e penas vermelhas de guarás e azuis de ararunas.

Mas, apesar de eles terem sido confeccionados no território onde hoje é o Brasil, quem quiser conhecer e estudar os Mantos terá de viajar ao exterior: todos os exemplares de mantos tupinambás de que se tem notícia estão em acervos da Europa.

Sabe-se que os mantos saíram do Brasil como consequência da invasão holandesa no Nordeste e hoje estão na Dinamarca, na França, na Itália, na Bélgica, na Alemanha e na Suíça. Quando foram expulsos de Pernambuco no século 17, os Holandeses levaram consigo muitas peças das culturas tradicionais brasileiras.

Depois de serem levados à Holanda, os Mantos percorreram caminhos obscuros até chegarem aos museus onde hoje são exibidos. Sabe-se que milhares de outros objetos de culturas da África, Ásia e América pertencentes aos acervos europeus possuem histórias parecidas de descaminhos e contrabandos.

Um dos Mantos, hoje na Bélgica, chegou a ser exposto em diversos museus europeus sendo chamado de “O Manto de Montezuma”. A ignorância dos museus também tinha serventia: atraía o público europeu, sempre curioso com a mítica figura do imperador Asteca, que nada tinha a ver com os Tupinambás. Foi só na década de 1920 que um pesquisador chamado Hirtzel atribuiu o manto a uma civilização brasileira.

Esta hipótese foi corroborada muitas vezes depois, inclusive por descendentes de Tupinambás. O Manto também é descrito com clareza em 1557 por Hans Staden, que foi cativo dos Tupinambás e presenciou um ritual Antropofágico em que o Manto era utilizado.

O mais conhecido e conservado Manto Tupinambá está no Nationalmuseet, em Copenhague, capital da Dinamarca.

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Por e-mail, o Nationalmuseet disse à BBC Brasil que o item consta de registros do museu que datam de 1689 e admitiu que não há “conhecimento sólido” sobre sua procedência. A instituição afirmou que o início de um processo de devolução, porém, depende de um pedido oficial do país – o que, segundo o Nationalmuseet, nunca foi feito em relação ao manto tupinambá.

Apesar de não existir pedido oficial do Governo Brasileiro, os povos que reivindicam ser herdeiros dos tupinambás, em especial os Tupinambá de Olivença, na Bahia, passaram a requerer o retorno do manto. Desde então, apesar de contarem com o apoio de universidades e outras organizações, não tiveram sucesso em reaver os objetos.

“Estamos vivendo um processo de resgate cultural. Recuperar o manto significa trazer a memória de nossos ancestrais para mais perto”, explica a pedagoga Núbia Batista da Silva, uma líder Tupinambá.

No fim dos anos 1990, a artista Lygia Pape utilizou a história dos Mantos Tupinambás para produzir uma série de obras de arte. Em uma delas, o vermelho característico do traje é utilizado como uma imensa nuvem pairando sobre a Baía da Guanabara, como uma constante sombra em nossa história.

Manto Tupinambá, 2000 - Lygia Pape
Manto Tupinambá, Lygia Pape. 2000.

 

por Ramón Moro Rodríguez

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