Artigos autorais

O Abaporu deveria voltar para casa

O Abaporu é uma das principais obras do período antropofágico do movimento modernista no Brasil. É também a pintura mais reconhecida de Tarsila do Amaral, além de ser a tela brasileira mais valorizada no mercado mundial das artes, com valor estimado de US$ 40 milhões.

A obra volta ao Brasil, em grande exposição no Masp. Mas ela vem emprestada. Ao término da exposição, o Abaporu retorna para a Argentina.

Longo Exílio

A obra de 1928 foi comprada pelo colecionador argentino Eduardo Costantini por US$ 1,4 milhão, em um leilão realizado na Christies de Nova York, no ano de 1995. Atualmente, a obra ocupa como um troféu lugar central no Malba, Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires, fundado e presidido por Costantini. O presidente do museu argentino teria dito que Abaporu está para o Malba como Mona Lisa para o Museu do Louvre, em Paris. Ou seja: de lá ele não sai.

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O próprio Raul Forbes, que vendeu a obra ao argentino, tentou repatriar a tela em uma operação envolvendo um pool de empresários. Estima-se que a proposta tenha sido de US$ 10 milhões, prontamente recusada por Costantini.

Em 2018, um colecionador do Brasil ofereceu US$ 30 milhões (cerca de R$ 120 milhões) para comprar a tela, mas a proposta também foi rejeitada. Costantini diz que a única opção para o Abaporu voltar ao Brasil é se o governo financiar a fundação de um novo Malba no Brasil, com o ‘Abaporu’ em seu acervo permanente.

Importância Indiscutível

O nome da obra surgiu em uma conversa entre Tarsila, Oswald de Andrade e o poeta Raul Bopp, que uniram as palavras tupi aba (homem), pora (gente) e ú (comer), resultando em “homem que come gente”.

Ao ver a tela, Raul Bopp indagou ao casal: “Vamos fazer um movimento em torno desse quadro?”. Nascia aí o Movimento Antropofágico, que, como um “homem que come gente”, se propunha devorar a cultura estrangeira e regurgitá-la com características brasileiras – basicamente o que Tarsila havia feito em sua obra.

Segundo Regina Teixeira de Barros, com Ibaporu Tarsila “olha para a infância, para a cultura popular, e tenta criar uma visualidade para o Brasil”.

A escolha das cores, formas e perspectiva da obra refletem o desejo de Tarsila de mostrar o Brasil de verdade, algo que, ainda hoje, se faz necessário. É a união da cultura popular com a “alta cultura”, acadêmica e conceitual.

Abaporu representa uma noção cultural tipicamente brasileira, em que as diferenças se complementam em uma identidade coesa sem abdicar da pluralidade.

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